sexta-feira, abril 01, 2005

O Manual do Esquecimento

O reflexo da casa na piscina tremulava, parecia gelatina, uma fulgurância ou uma memória antiga. Daí que só a recorde assim, sem cor, a ondular na distância dos anos. Na orla da relva havia canteiros e depois havia sebes e por cima das sebes via-se um muro branco e depois o céu azul a cheirar a mar. Lembro-me de uma vez em que enfureci uma colmeia de vespas e saltei para a piscina para lhes fugir e era como se saltasse para a casa, tal como agora saltei para a casa não sei porquê. Mais tarde alguém colocou-me uma moeda no sítio onde fui picado, talvez uma empregada, mas assim que me vi sozinho deitei a moeda fora porque não queria ficar bom para poder mostrar a borbulha ao meu pai. De modo que quando me foram deitar eu fiquei a pressionar a borbulha no escuro a lutar contra o sono até que os meus olhos começaram a arder, o mar cresceu lá fora e, antes que o motor entrasse na garagem, adormeci. No dia seguinte a casa continuava a murmurar na piscina, o mar era o cheiro no céu e eu já me tinha esquecido das vespas.

1 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Um bom texto na sua, pela sua, aparente simplicidade.

7:58 p.m.  

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