quarta-feira, março 23, 2005

O Velho, a Rapariga e a Macieira

Estava muito calor, mas nesta sombra zoava o silêncio das vespas. O silêncio inebriante das vespas à volta das maçãs sorvadas. Eu estava sentado a fumar, muito possivelmente a fumar. Vi a rapariga passar mas estava tanto calor que só me apercebi da expressão do rosto dela quando, já pelo fresco do crepúsculo, a trouxeram numa liteira, e acho que foi aquela mão a rojar no macadame que me lembrou a expressão do rosto dela.
Estava muito calor. Agora não me consigo esquecer.
No outro dia disse para mim:
- O raio da cachopa.
Mas alguém ouviu e julgou que eu falava para ele:
- Esqueça lá isso, homem.
- Não há quem apanhe estas maçãs. É um desperdício de maçãs.

1 Comments:

Anonymous Anónimo said...

A indiferença incómoda,por trás da inocência de um olhar. Bom.

2:43 p.m.  

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