segunda-feira, março 28, 2005

Desce a noite até às entranhas da terra.

Alberto:

Antes de adormecer tenho medo. Depois acordo a meio da noite e continuo com medo. Procuro o interruptor do candeeiro com os dedos a tentear o escuro, com os dedos cegos e com medo, encontro-o e fico um pouco com ele na mão antes de ligar a luz porque isso dá-me um prazer que não sei explicar. Click. A luz é baixa e cerosa. Ouço os outros dormir. Vejo as coisas deles - fotografias, chinelos. As coisas deles estão ali e eles estão a dormir. A minha respiração é profunda e compassada como se eu também estivesse a dormir. Depois desligo o candeeiro e não me lembro do que acontece a seguir.
Acordo antes dos outros. As persianas fosforescem a madrugada. Dá-me ganas de abri-las e deixá-la entrar. Adivinho as coisas dos outros na poeira da penumbra; estão no mesmo sítio e eles continuam a dormir. Já não tenho medo. Só quando o dia acabar é que volto a ter medo. Eu vivo assim os dias. Nasço e morro com eles.

Vicente:

Vou esvaíndo-me neste banco, pela terra abaixo. Sinto-me todos os dias mais pesado porque é a terra que me chama. Morreria neste banco não fosse a noite tresmalhar-nos a todos. Morreria aqui estátua de terra. E no entanto é no momento exacto anterior à noite, no momento sem tempo, que sinto medo sem o sentir. As coisas tingem-se de branco, a nossa pele amortalha-se de branco, as folhas no chão são brancas, este pedaço de madeira entre os meus dedos de terra é branco, as coisas eternizam-se de branco porque é o momento sem tempo riscado entre o antes e o depois. Eu observo os outros e só a esta lividez se lhes desvenda a vida nos olhos que se retintam e se dissociam das bocas murchas que falam sem vento, dos gestos sem rastro de lume. E há entre nós um instante de cumplicidade e às vezes um silêncio inapelável, uma fraternidade tão verdadeira, como a dos soldados, que sentimos medo sem sentir enquanto o dia se exaure e a noite vai avançando imperceptivel avançando e se instala absoluta e, de um só querer, sabemos que a morte deveria ser assim.