Começou a chover. A chuva há-de calar-se.
Vicente:
A chuva é uma cortina de contas em prata
faz círculos no chão
faz silêncio
e levanta o cheiro do cansaço da terra.
As pessoas correm e não têm vergonha de correr
e quando param debaixo do telheiro
ficam à espera e voltam a ter vergonha.
Amanhã, quando cessar de chover,
este telheiro vai voltar a estar vazio
connosco, que já nem correr podemos,
a jogar às cartas à espera da noite
para termos vergonha e irmos para casa.
Alberto:
A minha mãe morreu e eu não me despedi dela
Só soube quase um mês depois.
Está a chover, os pombos estão pousados
nos algerozes à espera que passe.
As árvores enclaustradas têm a mesma atitude violenta
dos pombos, que é a mesma das bonecas velhas.
Eu também vou morrer e de repente a morte está em todo o lado
mas isso não me faz sentir menos só.
A morte só admite a solidão e é por isso
que eu devia ter aprendido a solidão em vez de fugir dela.
O meu pai pôs-me fora de casa quando descobriu que eu era maricas.
A minha mãe nunca percebeu. Adoeceu quando me fui embora.
A minha mãe amava-me. Eu era maricas. Agora já não.
Agora só estou doente e vou morrer como a minha mãe.
Vicente:
Cheguei aqui sem dar por isso
Não sou como os outros que se tratam como velhos
Digo Velho e sei que sou velho mas esqueço-me no minuto seguinte
Como uma criança a quem se diz que vai ser castigada pelo que fez.
Seria mais fácil se eu fosse como os outros, se já não tivesse de me ver ao espelho.
Talvez porque os outros tenham envelhecido com uma mulher ao lado
Isso os ajudasse a envelhecer, como se tivessem uma prova viva da velhice
Como se tivessem um espelho vivo dos anos todos e do cansaço que eles pousam
Na pele. Ela só morreu há pouco tempo, mas calou-se há muitos anos atrás. E depois
De se calar ela começou a envelhecer com os sofás e com os cortinados e com as paredes, porque era como se tivesse morrido. Eu tratava dela e as pessoas viam nisso
Bondade e ternura e eu respondia-lhes com uma modéstia por cima de uma modéstia que elas supunham que eu tinha. A compaixão dos outros nunca me incomodou. Só quando as pessoas iam lá a casa vê-la e se assustavam de tal forma que se debulhavam em condolências e compassivos sorrisos de bonecas, me incomodava. Daí que eu não tenha envelhecido com uma mulher ao lado e talvez seja por isso que eu reaja à velhice como ela reagia todas as manhãs à ausência do miúdo. Ela acordava e chamava por ele e eu dizia-lhe que o miúdo se tinha ido embora e ela ficava a chorar baixinho. E foi assim todos os dias até ela se calar. E vai ser assim todos os dias até eu me calar.
Alberto:
Quando os meus pais não discutiam eu tinha medo dos fantasmas.
Vicente:
Foi como se eu também tivesse começado a envelhecer com os sofás e com os cortinados e com as paredes.
Alberto:
- Fecha a janela, Alberto, está a chover. Disse uma enfermeira que passou no corredor. As enfermeiras são borrões brancos, passos e vozes. Tratam-me por Alberto e muitas têm idade para ser minhas filhas. Não me importo. Estou aqui há demasiado tempo para merecer mais que a complacência que se tem com os objectos. Tenho a doença da minha mãe. Foi ela que me passou a doença. A minha mãe amava-me. Já não sou maricas. Pode ser que o meu pai trate agora de mim e logremos então despedirmo-nos dela. Os pombos estão pousados nos algerozes. Há um busto de mármore no jardim. E há uma fonte. E vibra por tudo isso a violência das coisas vivas. Entre o silêncio e a escuridão. A folha encontra o silêncio na queda. Eu na consistência amarela dos sonhos antes da manhã. Os carros esparrinham asas de água e desmancham os círculos que a chuva faz no chão à berma das estradas. As pessoas correm pressurosas à procura de abrigo. O céu é portentoso, de grandes castelos plúmbeos de nuvens a as pessoas olham para o chão. E correm à procura de um telheiro que as esconda do céu. Eu não as vejo daqui correrem, de um lado para o outro, entre os carros. Nem tão-pouco vejo os carros, avançarem e pararem, resolutos, taurinos. Uns e outras com cores garridas a vingarem-se de mim. Alguém ligou um rádio. O meu pai ouvia rádio e lia o jornal. E a minha mãe limpava a casa. E eu ouvia o jornal e a vassoura e fingia que dormia. Depois a minha mãe ia à casa de banho e eu ouvia-a fazer chichi de muito longe e adormecia.
- Quando eu voltar da rua é melhor que o miúdo já esteja a pé, Lucinda.
Ela chamava-se Lucinda.
- Lucinda.
Vicente:
Começa a escurecer e eles vão começando a ir-se embora. Levantam-se, dizem Então, até amanhã, e vão-se embora. E fico a vê-los afastarem-se como se fosse eu. Fico a vê-los chegarem a casa, fecharem a porta atrás de si e ficarem imóveis a ver a poeira da última luz que chega da janela da cozinha e da sala. Vejo-os ligarem o televisor com o som muito alto com a desculpa que são velhos porque eles são velhos e a irem à cozinha e a saírem da cozinha para a sala e mais tarde de sala para o quarto embrulharem-se em cobertores e esperarem pelo sono rodeados de fantasmas que gritam gritam gritam
Alberto:
- Lucinda.
Vicente:
A culpa foi do miúdo. Ela fazia-lhe as vontades todas. Eu bem a avisei. Cresceu debaixo da asa da mãe. Eu bem a avisei. Eu fiz o melhor que pude para fazer dele um homem, mas ela fazia-lhe as vontades todas. Depois ele abandonou-a e ela abandonou-me a mim. A culpa foi do miúdo.
Alberto:
A culpa é minha. O meu pai batia-me e batia na minha mãe. A culpa é minha. Eu sou maricas. Eu sou a minha mãe.
Vicente:
Gritam gritam gritam
Alberto:
A minha mãe amava-me. Fecha a janela, Alberto, está a chover.
Vicente:
Velho.
Alberto:
Lucila, Alzira, Adelina, Lúcia, Alcina
Vicente:
Embrulhados em cobertores, mas está sempre frio. Lá fora, a chuva é uma cortina de faúlhas dentro do halo esborratado dos lampiões, desaparece na torrente e é ensurdecedora. A culpa é dele.
Alberto:
A culpa é minha.
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2 Comments:
Este entrecruzar de monólogos convergentes, resultou num texto inteligente e pleno de dramatismo. Gostei :)
isso tudo e mais ainda!
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batatas com enguias
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