Um começo
1.
Vê-se um cinzeiro. Uma mão abandonada pendurada de um fio de fumo. Ouve-se suspirar e uma nuvem agitada expande-se, expande-se demais, e desaparece em estratos imóveis no ar, como faixas de gaze, como as linhas de espuma nas marés baixas de setembro. Surgem então dois pés; um que se pousa sobre o outro. São largos e pálidos. São feios. Dois pés e um cinzeiro e estratos de nuvens imóveis no ar; como um crepúsculo de setembro. A mão desaparece, regressa e outra vez a nuvem. Violenta, muda, primeiro branca, depois azul, um azul suspeito. Que se dissolve. E outro suspiro. E um fio de fumo que se enrola no tecto.
Ouve-se uma risada, cava, ressentida. A mão desloca-se, o fio treme. Os objectos sobressaltam-se, estremunhados. Levantou-se o pó invisível do silêncio, para logo assentar novamente, como uma asa cortada.
Da porta do quarto, uma água-furtada, vê-se uma mulher adormecida numa cama, vê-se as costas de uma poltrona e a silhueta de uma cabeça enquadrada na janela para onde parece olhar. Depois surge uma mão com um toco de cigarro e logo a seguir uma nuvem de fumo.
Olhando pela janela vêem-se prédios estriados pela água da chuva na vidraça.
Outra risada, mais prolongada. A mão sobe triunfalmente, num arco, desce, e a cabeça sopra o fumo que alastra pelo vidro da janela. Outra risada, aberta, quase franca, quase espontânea.
A mulher na cama move-se. O seu rosto está tapado um pouco pela almofada, um pouco por uma madeixa de cabelo castanho. Castanho escuro, na penumbra fria do quarto.
A janela é fustigada por uma saraivada. A mulher move-se outra vez, cobre com o lençol uma perna que estava descoberta. Inspira, boceja, vira-se bruscamente para o lado da poltrona. Coloca uma mão sob a almofada. Encolhe-se numa posição fetal. Da porta do quarto não se vê, mas dir-se-ia que ela tem os olhos abertos. Castanhos, húmidos, reflectindo a claridade cinzenta da janela. As costas estão descobertas até ao princípio das nádegas. Entre as espáduas salientes destacam-se as vértebras que desaparecem entre os lombares. Do emaranhado de cabelo surge um ombro magro que culmina num ponto baço de luz. Os olhos ter-se-ão fechado.
- Que dia é hoje?
A voz é rouca e flébil, mas apesar de não ter passado de um murmúrio, anulou o pó do silêncio, e os estratos de fumo como que vibraram e desapareceram. A voz débil, indistinta, de quem acorda de um sono profundo, tomou o quarto até aos escaninhos mais escondidos e, agora, as risadas de há pouco afiguram-se um produto desse sono.
Não está ninguém na poltrona. A mulher está sozinha.
Senta-se, joelhos flectidos, olhos inchados e fitos, longe ainda, pigarreia, experimenta o silêncio, pousa os cotovelos nos joelhos e esconde o rosto nas mãos. Fica assim uns momentos, à espera ou à procura, à espera e à procura, a esquecer e a lembrar, um minuto se tanto, deita-se novamente, estica os braços, espreguiça-se, boceja, um esgar que toca as margens do sorriso, e quase num pulo põe-se de pé. É alta. Tem um corpo bonito, moreno e elegante, um pouco magro e é só. O cabelo comprido está muito despenteado mas é liso. Ao sol terá reflexos de ouro.
Senta-se na poltrona e ouve-se o riscar de um fósforo. A cabeça inclina-se para o lado e sopra fumo. Depois recosta-se para trás. Não é o fumo em si, é a sensação de que ele sobe no ar com a angústia, sobe no ar, deixa um acre na garganta que tem o sabor amargo da angústia, por entre os lábios e sobe no ar, lento, lânguido, como a dor que acorda connosco, a verdadeira, não é o fumo em si portanto, é ele parecer-se tanto com o remorso e com a saudade.
Ainda quis soltar uma gargalhada, daquelas curtas e secas, daquelas, mas como denunciasse um dramatismo demasiado consciente, hesitou, bastava de dramatismo. E selou o silêncio e a solidão como mais uma passa.
Ela conhece tão bem os mecanismos da mente, as suas encenações, os seus embustes, que não se permite sofrer. Ela também sabe disto, mas pensa que agora não pode ser de outra maneira. Lembra-se de ter lido:
«Sofrer é sempre culpa nossa.»
p.s. seria o começo para qualquer coisa, como centenas de outros começos, mas como não gostei ponho-o aqui e acabo com ele, bem entendido.
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