domingo, outubro 23, 2005

Resposta no Feminino

Este texto foi escrito pela Luísa Domingues, dando sequência ao Carta Para Outro Como Eu. Para quem se interesse por isto de escrever histórias, têm aqui uma excelente oportunidade para aprender a distinguir o bom do mau: este é um bom texto:


Com uma ansiedade contida, ela viu o homem levantar-se da mesa e dirigir-se ao empregado que, havia horas, matraqueava, uma a uma, as teclas do computador numa inexperiência de doer. Por segundos, teve a ilusão que ele se fosse dirigir a ela mas não, o homem limitou-se a tinir as moedas no zinco do balcão, limpo até ao fastio, e com um seco Até amanhã sem resposta, saiu do café.
Então ela pegou no último cigarro que lhe restava e esmigalhou com desespero o maço vazio.
- Que estúpida fui! Perder, por uma timidez perfeitamente idiota, uma oportunidade daquelas… podia não aparecer outra durante muito tempo, se calhar nunca mais… não podia perdoar a si própria… E agora? Agora mais uma série de infindáveis dias a cumprir no vazio, o desejo da alguém a roer fundo. Aos seus quarenta anos de mulher só, como agradaria uma aventura, um caso, mesmo que inconsequente que a ajudasse a esquecer que amanhã já nem sequer teria dinheiro para um maço de cigarros.
Ele também estava a fazer as palavras cruzadas, como eu… Talvez também esteja desempregado… Não estava lá muito bem vestido… Tinha uma nódoa na camisa… A mulher não deve tratar muito bem dele… Se calhar nem tem mulher…
O cigarro era longo e perfumado e ardia no cérebro como uma tontura e ardia nos dedos com pressa de partir.
Talvez ele volte amanhã. Se calhar é um cliente habitual do café….
O homem tinha os olhos fugitivos do caçador sem presa, caíra na armadilha dos anos, como ela… Porque é que não aguentei o olhar dele? Porque me recolhi numa vergonha que não desejo? Porque fingi os olhos baixos sobre uma página de jornal quando nem conseguia perceber as imagens que tinha diante de mim? Que burra!...
Ele tinha um olhar voraz, os olhos pesados de um desejo incumprido. Fiz bem, senão ele ainda ia pensar que eu sou alguma pêga triste… Têm sorte, elas… têm quem as abrace, mesmo que em instantes de amor fingido… E ela estava ali sozinha. E andaria pelas ruas sozinha. E ninguém fecharia a porta de casa atrás dela.
Então ele fechou a porta do quarto. Olhava-a com os olhos muito fixos, muito profundos, negros. Aproximou-se dela Como estavam tensos! e abraçou-a e beijou-a com a boca, com as mãos… despiu-a e fizeram um amor lento, de descoberta, de prazer… Não. Não da primeira vez. Ele estaria demasiado ansioso. Ela esperaria. Na vez seguinte, talvez na preguiça terna da madrugada. Depois ela dormiria no suor do seu abraço. Ele, cabeça pesando no seu peito.
Se ele vier amanhã…
Se ele vier amanhã, hei-de ter coragem para o olhar, vou olhar para ele provocadoramente, nos olhos, com uma leve expressão de gozo, talvez… Amarrotar aquela pseudo superioridade… Afinal não passa de um quarentão, uma roupa que já foi nova ontem, a esconder-lhe aquelas primeiras adiposidades… e tinha a página dos anúncios, sublinhada! Um falhado…
Se…
Estou tão magra! E já tenho cabelos brancos, aqui à frente. E estou mal vestida…De certeza que ele passou os olhos por mim por eu ser o único obstáculo que se interpunha entre ele e a porta. Maldito garoto que não pára de matraquear nas teclas!!! Coitado, na idade dele deve ser aborrecido trabalhar num café vazio… mas tem sorte, pelo menos tem um emprego. Eu não tenho nada… Que raiva!
Se ele viesse amanhã…
Agradável, tão agradável, o interesse dele pousado sobre mim… Ela endireitara instintivamente o corpo e passara uma mão invisível pelo cabelo, numa surpresa tola. Desejava tanto que isso me voltasse a acontecer um dia… e dizer que só me atrevi a olhar para ele de soslaio… O olhar dele sobre ela, displicente como num mero exercício de curiosidade, tinha instantes furiosos de despeito e medo.
Amanhã trago o vestido vermelho. Também posso pôr perfume, daquele antigo que ainda lá tenho.

Amanhã não venho. Ele ainda ia pensar que eu vinha cá por causa dele.

Se ele vier amanhã
- Posso?
- Faz favor…

2 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Um (muito) bom texto. E uma excelente réplica :)

1:40 a.m.  
Anonymous Anónimo said...

Obrigada, José Filipe, pelas suas palavras. Deram-me uma grande satisfação :)

12:37 a.m.  

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