quinta-feira, março 10, 2005

Confins ou a Lógica do Absurdo

Começo com um texto antigo. Não guardo memória de mim nos tempos em que escrevia assim. Nem tão-pouco recordo ter escrito este texto. Há dias li-o por acaso. E pensei que se o li foi porque o tinha publicado num blog. O propósito deste blog é esse de permitir que eu tropece em textos anos depois de os ter escrito. Não quero ler tudo o que tiver escrito, quero só tropeçar num ou noutro, como aconteceu com este:


confins, incolor, hórrido, pós-apocalipse, cela que era efectivamente uma prisão,
o desprezo o que lhe trouxe? A sentir o ferro a solidez do ferro a doer-lhe no corpo. Os seus gritos contra a inexorabilidade da ampulheta, contra a areia cega da ampulheta, vvveeee, a ecoarem pela sanzala. As manhãs prolongadas, no cansaço do depois a lassidão apetecia fundir-me nela com um langor de abandono e a imensidão nos olhos.

Borbotões de folhas Borbotões de folhas
Areia e farinha nos pratos da bateria
o jazz borboleteando subtilezas
Que mais me faz rir além das curvas das escadas?
A couve segue o brilho no percurso
pelo gume até à ponta da espada
Areia e farinha nas crinas do vento
o sal irremível cuspido pelas cristas
a Encosta dos Peixes Guedelhudos
fulge fulge refulge a dança das sereias à tona da noite
conúbio de línguas
O farisaísmo dos estrangeiros de cartolina
Os estrangeiros de cartolina e franjas de papel
agradecem com os narizes escamados
colhão esquerdo é mais humilde, vistas bem as coisas
Quando o cavalo vesgo saracoteia risos
a planta rebenta folhas,
parem-se flores deslizando
ajudadas pelo ranho amniótico da escuma
Já quando o cavalo alado
norteia as hordas dos anjos
o soslaio ansioso do meu amor
o sorriso que me aquece o peito
o meu assombro tolhido
da altura monstruosa dos músculos,
descubro que também sou um cavalo
cujo olhar segue a alvura fresca
da égua correndo a tundra
Dói-me o coração aquecido
(estala)
rasga-me finalmente um sorriso
arde-me finalmente um sorriso
Que deusa odorosa aninhas atrás dos olhos?
Que pensam as fiandeiras do linho do teu cabelo infinito?
desliza a seda pétala na tua perna
teus pés envergonhados recolhidos
beijo-os com a honestidade pagã
Abraço-te dentro do Frio
(as seteiras do riso, as seteiras do riso,
as ameias dos olhos pardos)
Abraço-te dentro do túmulo
do silêncio do túmulo na pele
Continentes de líquenes na crusta matizada
A nudez cega no templo
concedo-te a nudez
a cada toque meu rebenta uma flor
até seres crisântemo
com toda a efemeridade, com toda a fulminância,
com a brevidade do lume que isso implica.
A margem do caos a minha liberdade,
Os tons do absurdo pespontam na superfície incolor
juncada de favas que são olhos
e de buracos que são bocas
- Por que esperas, então?
Pelo acaso, pelo absurdo do acaso.
Colocas a lentes de ti mesma
e o mundo pinta-se das cores que conheces.
Qual é o jeito disso, afinal?
Qual é o jeito disso?
Esconde-te à distância da última estrela
deixa-te lá ficar
chora chuva na Lua
que eu hei-de estar atento.
Tão simples: ter-te nos braços, sentir o perfume do teu cabelo.
Tão simples.

1 Comments:

Anonymous Anónimo said...

quero sorrir-nos.

9:56 p.m.  

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